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  Entre teoria e prática - Dia 2

Ulisses Carrilho*

Uma overdose de Adorno marcou o início da segunda noite. Sam McAuilffe foi responsável por um dos momentos mais densos do RODA. Em conteúdo e em explicações. Com a simplicidade do fundo preto e letras brancas, poucas telas de apresentação foram responsáveis por uma imersão na visão de Adorno sobre a arte. Como ponto de partida, usou a seguinte frase: “Art is autonomous and it’s not; without what is heterogeneous to it, its autonomy eludes it”. A autoria é claro, de Theodor Adorno. Não ouso traduzi-la, pois o próprio estudioso – fica claro pela juventude e profundidade da fala, um prodígio acadêmico – faz ressalvas quanto à tradução de termos do alemão para inglês. Ainda na súmula da fala do professor da Goldsmiths/Universidade de Londres, já estava posta a dicotomia da autonomia da arte.

A bela Susanne Pfeffer é estonteante. Intelectual e sóbria, vestida em preto, é com calma que a jovem curadora-chefe do KW Instituto de Arte Contemporânea retomou os passos de sua curta e promissora trajetória frente à instituição. (A beleza de Susanne e Storm, palestrante da noite anterior, causou suspiros na plateia). A prática de Susanne bem como a teoria de McAuliffe são constantemente sustentadas, mais uma vez, no diálogo. Entre teoria e prática, os dois profissionais galgam-se na experiência reiterando o conceito.

A primeira mostra que Susanne curou na posição de curadora-chefe foi a de John Coleman. Uma individual que estaria aberta ao mesmo tempo que a Bienal e a Documenta de Kassel. Responsabilidade grande é pouco. Chama a atenção, de maneira muito positiva (e exemplar para a realidade do Rio Grande do Sul), as escolhas nada seguras, mas de muito sucesso que tomou. Mais uma vez, a prática com respaldo da teoria. Sem medo de obedecer a academicismos, Susanne mostrou o resultado de uma decisão acertada. A curadoria como proposta de visão se reafirma a cada mostra.

A segunda exposição surgiu de uma proposta, um exercício de criação: convidar artistas a pensar uma obra para ser executada em apenas cinco minutos. Aí está “5 minutes later”. Depois, “Vorspannkino”, em que ressalta a desaprovação de muitos em relação a mostra, pois aquilo não seria arte. A alemã, com muita humildade, diz que uma de suas motivações pessoais é “a importância do visual, não da arte em si”.

Logo após uma mostra de “Sergej Jensen” e, para a surpresa de muitos – inclusive a minha – a obra de uma brasileira que eu desconhecia. Renata Lucas propôs mudanças no prédio, abriu fenda, criou mesas giratórias, chãos que davam a ilusão de movimento. A instituição acatou.

A sexta exposição abordada foi a de Absalon. E devemos ficar atentos a esse nome: ele ainda será pauta de muitas discussões no Brasil. O artista franco-israelense acaba de ser anunciado como um dos nomes da 30ª Bienal de São Paulo. Suas maquetes e construções em branco são estonteantes. E por último, a obra de Cyprain Gaillard. Uma pirâmide de caixas de cerveja (pagas pela instituição, não aceitaram patrocínio) era o cenário para 8 semanas de performance. A pirâmide foi a fonte de bebidas do coquetel de abertura, móvel para acomodação do público e esteve disponível para consumo do público.

Susanne Pfeffer ainda retoma a importância da cidade de Berlim para o acontecimento de tal obra. A cidade é cosmopolita o bastante para ter um instituto que a sustente, mas pequena o bastante para que uma proposta como essa seja possível. Ponto de partida para repensar Porto Alegre.

*Ulisses Carrilho é um "quase-jornalista". No último semestre de Comunicação Social, pesquisa a crítica de arte brasileira. Tem passagens por comunicação de marcas de moda e no Museu de Arte Contemporânea-RS. Ainda alimenta o http://itsallmentalmasturbation.tumblr.com/, com imagens de moda masculina.








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