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  Quem ou o quê é um artista?

Ulisses Carrilho*

Evento Roda - Novas Reflexões sobre Arte (1º Dia)

No ótimo texto em que escreveu (http://noize.virgula.uol.com.br/estranho-mundo-die-antwoord/), o jornalista Léo Felipe aborda a relação proposta pelo curador independente Storm van Rensburg da curta história da arte contemporânea sul-africana com as batidas do zef rap da banda Die Antwoord, com carreira internacional consolidada. Correlacionar a arte contemporânea com os meios não-tradicionais é um pressuposto para entender como ela se apresenta no contexto atual. Relações aproximam, criam recortes.



O evento, 1ª Rodada de Debates sobre Arte, foi sucesso de público. Sala lotada e inscrições com fila de espera. Tal fato merece ser colocado já de antemão pois reafirma a existência de público que se interesse. Os palestrantes tinham diversas ocupações: galeristas, curadores, artistas e críticos.  Bernardo José de Souza, um dos grandes nomes que fazem o cenário cultural porto-alegrense efervescer, tem seu destaque por não menosprezar a cidade. É um personagem que foi e voltou à cidade.  Na primeira edição do RODA, escolheu a geração que se desenvolveu paralelamente ao processo de globalização. E o público endossou essa escolha.

Elaine Tedesco, importante nome da cena acadêmica e artística do Rio Grande do Sul, tendo já exposto na Bienal de Veneza, no ano de 2007, partiu dos seus observatórios para dar tom à palestra. As obras, em que trabalha a partir de construções arquitetônicas semelhantes aos observatórios de pássaros, falam sobre visibilidade. Sobre a possibilidade – por vezes esquecida – de que se é visto enquanto se vê. 

“Arte contemporânea brasileira = Decoração de casa de emergente?” foi o título da apresentação de Fábio Cypriano, onde ele assumiu seu papel de crítico e trouxe à tona uma questão bastante coerente já presente no título de sua fala. O mercado das artes e a retro-alimentação. Aqueles que compram financiam quem cria (o ritmo de criação cobrado ao artista geralmente é frenético, cita Fábio) e ditam o gosto. Os cruzamentos, como os de Storm e Leo Felipe, estão presentes na fala do jornalista da Folha de São Paulo. Pela grande penetração de brasileiros no mercado imobiliário de Miami, o maior público da Art Basel é justamente de brasileiros. Cypriano lembra, em tom claramente irônico, que “nem todos os trabalhos têm de combinar com o sofá”.




Logo após a fala de Fábio, a pergunta de um senhor, claramente motivado a ir à palestra pela divulgação no jornal (encontrei-o no elevador por acaso, minutos antes de subir à sala P. F. Gastal, com o recorte do jornal pintado em caneta marca-texto), deu título a este texto. A questão levantada é de suma importância. Traz a questão da intencionalidade do artista. No entanto, foi motivo de risos abafados do público “especialista” que estava por volta. Estes, provavelmente, preferiam continuar a falar em kunstwollen e serem entendidos por poucos. A resposta dado ao senhor foi simplista. Enquanto preferirmos que questões importantes e inerentes ao entendimento da arte contemporânea sejam tratadas de forma hermética, não haverá entendimento. Tal iniciativa reitera que o “grande público”, quando perguntado, diga não gostar de ver produção contemporânea em museus. Enquanto rirmos de quem pergunta, continuaremos a chorar da falta de público.

*Ulisses Carrilho é um "quase-jornalista". No último semestre de Comunicação Social, pesquisa a crítica de arte brasileira. Tem passagens por comunicação de marcas de moda e no Museu de Arte Contemporânea-RS. Ainda alimenta o http://itsallmentalmasturbation.tumblr.com/, com imagens de moda masculina.








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