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  Maria Antonieta entre o rococó e a Revolução


Por Laura Ferrazza de Lima*

O título da reportagem remete a duas épocas históricas que cercam a vida de Maria Antonieta. Ela viveu no século XVIII, mais precisamente entre 1755 e 1793. Quer dizer que ela nasceu em meados do século e morreu em conseqüência da Revolução Francesa. Afinal, era a revolta do popular contra o nobre e nem a cabeça da rainha foi poupada. Austríaca de nascimento foi com sua chegada à corte francesa que sua estrela começou a brilhar. Casou-se em 1770 aos dezesseis anos com o príncipe da França, o futuro rei Luís XVI.  A França como sempre ditou várias modas durante esse século. O início do período é marcado pelo rococó. Ainda que o termo tenha sido utilizado de forma depreciativa no século XIX, por ser comparado com excessos e frivolidades, hoje se refere a um estilo artístico representativo da cultura francesa. A cultura responsável pelo estilo rococó se caracterizava pela busca do prazer pessoal. Isso incluía também a indumentária que nessa época foi elevada à categoria de arte. Este estilo de vestir dividiu-se em duas direções opostas, uma da estética artificial e outra que manifestava um desejo de retorno à natureza.

Para as mulheres o espírito essencial da moda rococó residia na elegância, no refinamento e nos enfeites. Porém havia também elementos caprichosos e extravagantes. O vestuário feminino do século XVIII era ornamentado e sofisticado. Os vestidos de palácio adquiriam uma elegância esplendida. Simultaneamente as pessoas da corte desejavam um estilo de vida cômodo que lhes permitisse passar horas de ócio. Para satisfazer essas necessidades cotidianas surgiu um estilo de vestir relativamente mais relaxado e informal. Mas isso é bem relativo mesmo viu pessoal. Um dos trajes típicos do rococó era o chamado vestido à francesa (robe à la française). Este estilo persistiu como traje de etiqueta para a corte até a época da Revolução.

O vestido era composto por uma saia, uma sobresaia e um pedaço de tecido triangular que cobria o peito e o estômago e era encaixado numa abertura frontal do vestido. Essas peças iam por cima de um corselet ou corpete e uma armação lateral, as ancas, que davam forma à silhueta. Os extravagantes tecidos de seda produzidos em Lyon eram essenciais para a moda rococó. O busto podia ser adornado com fitas, o que acentuava suas formas. Ele era ainda levantado e moldado pelo corselet de uma forma muito sedutora. Os vestidos em sua totalidade eram enriquecidos com babados, amarrações, fitas e flores artificiais. Ainda que se possa dizer que a ornamentação é excessiva, os elementos conservam um equilíbrio harmonioso e representam o espírito mais sofisticado e delicado do rococó.
A partir da década de 1770, que coincide com as bodas de Maria Antonieta, nota-se certa anglomania na França. Isso mesmo, incorpora-se certos costumes ingleses como o de passear pelo campo e desfrutar o ar livre. A influência pode ser notada nas vestes femininas, como o costume à inglesa. Nessa época o antigo regime, ou seja, a monarquia estava à beira do colapso. O estilo rococó, então mais maduro, foi perdendo importância. O vestido de corte mais representativo desse momento possuía uma enorme saia estendida lateralmente mediante amplas ancas artificiais. O conjunto completava-se com um penteado alto, que tinha como objetivo exaltar a beleza do artifício. Os vestidos não eram mais simples peças de vestir, mas incríveis construções arquitetônicas feitas de tela. A refinada estética da cultura rococó desaparecia e sua delicada leveza era substituída pela grande sombra da Revolução.

Provavelmente são esses os figurinos que iremos ver mais claramente no filme de Sofia Copola sobre Maria Antonieta. Essa extravagância não passava de um mecanismo de defesa da nobreza, para afirmar seu poder. Exageravam suas características refinadas, defendiam-se atrás de sua opulência. Os gigantescos penteados e enormes perucas deste período não faziam mais que ampliar a obscuridade dos dias que viriam. Os rostos femininos pareciam diminutos em meio a uma ornamentação tão exagerada. Os penteados eram suficientemente grandes para conter reproduções de carroças, paisagens, cestas de frutas e todo tipo de elemento fantasioso.

A moda desse tempo incorporou o conceito de Jean – Jacques Rousseau de “retorno a natureza”. Maria Antonieta foi uma das precursoras do estilo de indumentárias que iria refletir esse tema e que também era influenciado pela anglomania. A fim de escapar dos rigores da vida na corte, a jovem rainha começou a vestir-se com um simples vestido de algodão e um grande chapéu de palha. Ela julgava ser uma pastora e para tanto criou um ambiente perfeito num chalé dentro dos jardins de Versalles. Usava também uma camisa de musselina branca, que em 1775 ficou conhecido como “chamise à la reine” ou (camisa à moda da rainha).

Todo esse esplendor rococó, seu charme nos detalhes, seus motivos ligados à natureza se traduz numa moda de exageros requintados e de sonho. Há um desejo de se voltar para esse fulgor de rendas, fitas, enfeites mil quando o mundo parece descortinar-se cinza em nossa frente. Inclusive atualmente vemos uma inspiração romântica que resgata alguns elementos desse período e de outro lado um estilo que incorpora o futuro nebuloso.

* Laura Ferrazza de Lima é mestranda em História pela UFRGS e
pesquisadora de História da Moda.

Fotos: Reprodução


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