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  “Anos Dourados” – da inocência à rebeldia!

Por Laura Ferrazza de Lima*

Resolvia falar dos anos 50, porque nosso último editorial em seu estilo vintage divino faz referências claras a essa época que ficou conhecida como os “anos dourados” e exercem grande fascínio nas pessoas. Explorado como ambientação em seriados, novelas e filmes, essa época é sempre representada como um momento romântico, de pureza e recato. Significa que compramos bem o pacote idealizado da época, mas não podemos esquecer que é nesse mesmo momento que surge o rock’n’ roll (como podemos ver na matéria publicada nesse site), que a juventude intensifica a distância com os adultos. Ocorre a explosão da moda jovem. Saias rodadas, o xadrez, as calças cigarrete, meias soquete, sapatilhas, é um estilo criado por adolescentes americanas e foi batizado de college. Cabelos curtos ou rabo de cavalo, essas eram algumas das marcas registradas das meninas que freqüentavam as lanchonetes, ouviam rock e se apaixonavam por rapazes de lambreta, que usavam seu jeans com camiseta e casaco de couro, no melhor estilo James Jean e Marlon Brando. Esse modelo foi eternizado em clássicos do cinema como “Juventude Transviada” e os dois tornaram-se sexy simbols do período. O cinema passa a explorar esse estilo “rebelde de família”. Além deles, temos Elvis Presley, que lançou moda como ícone do recém nascido rock’n’roll.

Elvis de lambreta

Estamos no momento do pós - Segunda Guerra Mundial, a própria indústria da moda precisa se reerguer dos anos em que seu pólo máximo de influência, Paris foi ocupada pelos alemães. Durante esse período a moda sobreviveu a duras penas, com leis de racionamento, falta de material, o que levou pela primeira vez ao uso de matérias primas alternativas. Mas depois da tempestade todos querem a bonança, principalmente os grandes vitoriosos, ou seja, os Estados Unidos, muitos dos grandes costureiros franceses se refugiam lá. Menos Imagem do  Teatro da Moda , exposição em Paris, 1945.é claro a lenda viva que é Chanel, ela ficou na Riviera francesa. Em 1945, logo após o término da guerra ocorre em Paris uma exposição chamada “Teatre de la mode” – (o teatro da moda), nela grandes estilistas vestem bonecas de gesso e arame com suas mais novas criações. Em 1947 Cristian Dior lança o “new look”, que acrescentou anos e dignidade às mulheres. Foi assim batizado pela jornalista da Haper´s Bazaar, Dior estava radicado nos Estados Unidos e voltou à França para lançar a silhueta que se tornaria o símbolo dos anos cinqüenta, uma cintura marcada e saias muito rodadas e volumosas que chegavam até abaixo do joelho, o exagero de tecido era uma forma de extravazar os anos de contenção. O luxo era um desejo e foi atendido.

New Look

Porém, não estamos mais num período de estilos hegemônicos, muitos estilistas combatem esse modelo, principalmente as mulheres, Chanel e Sciaparelli, porque o estilo lembra a mulher espartilhada de fins do XIX, não é prático, torna a mulher uma figura idealizada. Chanel lançou nesse período a camisa em estilo masculino para mulheres e cardigãs, revelando o lado unissex da moda. As moças já mostravam uma tendência para um vestir particular, fugindo dos modismos de suas mães.  O jovem desse período estava mais liberado e passa a assumir um novo comportamento. Ele possui uma vida social mais intensa, freqüenta bailes e festas, criam-se espaços de sociabilidade próprios para a juventude.

Obviamente era o homem sóbrio e bem vestido em seu terno cinza de flanela o par ideal da mulher “dona- de -casa”. Esse era o casal modelo vendido pelas revistas e pela televisão. Alguns homens adotaram um estilo neo-eduardiano, imitando pais e avós. Eram os jovens da classe trabalhadora, conhecidos como Teddy Boys, eles usavam gravatas e calças excessivamente estreitas, e sapatos ou botas com salto muito altos e pontas em bico. Além disso, rejeitaram o paletó estreito, preferindo ombros largos e acolchoados, que lhes conferia uma aparência musculosa.  

Mas afinal, quem eram as mulheres dos anos 50? Convencidas pela família, pelas próprias revistas femininas, enfim pela sociedade, as moças de classe média desse período deveriam comprar o ideal de ser donas de casa, esposas e mães, dando grande importância ao casamento. Talvez, os anos 50, nos apresentem uma divisão curiosa na moda, com duas espécies de mulheres, explicada por uma distinção de gosto e pela tentativa de criar uma identidade visual associada à juventude. Uma parte das mulheres era mundana, sofisticada e usava roupas elegantes, com cortes adultos. A outra era composta por “garotas” ou “adolescentes”, que podiam ter entre treze e trinta anos. Essas últimas usavam suéteres e saias largas, jeans e bermudas. A moda desenhada para o primeiro grupo era fotografada em modelos arrogantes, com maças de rosto acentuadas, neurastênicas, na faixa dos trinta e poucos anos. As do segundo grupo apareciam vestidas em adolescentes de rosto redondo, com a aparência convencionalmente saudável. Na realidade essas mulheres díspares eram muitas vezes a mesma mulher em ocasiões diferentes: apertada em uma faixa justa de cetim endurecido para festas e em roupas folgadas e descontraídas no dia-a-dia.

* Laura Ferrazza de Lima é mestranda em História pela UFRGS e
pesquisadora de História da Moda.

Foto: Reprodução 


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