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  Quem é essa mulher? Zuzu Angel – Moda e Ditadura Militar

Por Ana Carolina Acom*

Zuzu AngelQuem é essa mulher / que canta sempre esse estribilho / só queria embalar meu filho / que mora na escuridão do mar / Quem é essa mulher / que canta sempre esse lamento / só queria lembrar o tormento / que fez o meu filho suspirar / Quem é essa mulher / que canta sempre o mesmo arranjo / só queria agasalhar meu anjo / e deixar seu corpo descansar / Quem é essa mulher / que canta como dobra um sino / queria cantar por meu menino / que ele já não pode mais cantar

Esta é a letra da música “Angélica” que Chico Buarque compôs para a estilista Zuzu Angel um ano após sua morte. Zuzu ficou conhecida por ser a primeira estilista (na época era intitulada figurinista) a levar suas criações para desfilar em Nova York. Além disso, lutou bravamente contra a ditadura brasileira, a fim de denunciar a morte, tortura e ocultação do cadáver de seu filho, Stuart Angel Jones.

Criação de ZuzuZuleika Angel Jones nasceu na cidade de Curvelo, Minas Gerais, em 1921. Mudou-se para Belo Horizonte ainda menina. Mais tarde, em 1947, foi morar no Rio de Janeiro, onde permaneceu até sua morte em 1976. Muito antes de nomes como Lino Villaventura ou Alexandre Herchcovich fazerem sucesso no exterior, Zuzu já conquistava páginas inteiras do The New York Times e New York Post, sendo pioneira a entrar no mercado norte-americano, realizando desfiles no exterior com uma linguagem de moda originalmente brasileira. Lá fora suas roupas participaram de importantes editoriais e vestiram atrizes hollywoodianas como Joan Crawford, Kim Novak, Liza Minelli e Jean Shrimpton.        

Nos anos 70, Zuzu Angel possuía uma loja que fazia grande sucesso em Ipanema. Na verdade, Zuzu foi pioneira em muitos sentidos, começou antes de outros costureiros a divulgar sua marca, colocando-a do lado de fora nas roupas. As figuras de anjos tornaram-se a sua marca registrada por representarem seu nome. A originalidade de sua proposta de moda é devida a uma temática essencialmente brasileira, fazendo uso de cores tropicais e materiais brasileiros. Zuzu foi a primeira a utilizar na moda as pedras brasileiras, fragmentos de bambu, madeira e conchas. Ela começou como costureira, depois tornou-se “designer” de moda, criando belíssimas e interessantes peças. Fez saias, xales e vestidos com panos de colchão, fitas de gorgorão, rendas do norte, chita, utilizando estampas de pássaros, flores e borboletas.

Patrícia Pillar como Zuzu AngelZuzu Angel também quebrou padrões comportamentais, pois, em um momento de extremo medo ela protestou e se fez uma bandeira viva de contestação. Seu filho Stuart foi um desaparecido político da ditadura. Stuart foi preso em 14 de maio de 1971 e levado para a Base Aérea do Galeão, onde foi torturado e morto. Seu corpo, se supõe, foi jogado ao mar como tantos outros. O preso político Alex Polari de Alverga escreveu à Zuzu da prisão, logo após a morte de Stuart, relatando as torturas sofridas por seu filho. Este depoimento consta no vídeo “Sonia Morta e Viva” produzido e dirigido por Sérgio Waisman, em 1985.

Zuzu Angel foi a primeira estilista a realizar protesto político através da moda, lutando corajosamente para encontrar o corpo de seu filho. Freqüentava julgamentos trajando roupa preta, um cinto cheio de crucifixos, véu e um anjo pendurado no pescoço. Externava sua denúncia através de seus trajes e de suas criações. Zuzu produziu a primeira coleção de moda política da história da moda, usando estampas e silhuetas bélicas. Usou estampas de pássaros engaiolados, balas de canhão disparadas contra anjos, anjinhos amordaçados, meninos aprisionados, sol atrás das grades, pombas negras, crucifixos, além de bordados de quepes e tanques de guerra. Em seu protesto político, estas foram as metáforas que encontrou para simbolizar, em seu trabalho, a história de seu filho. Esta coleção foi apresentada em Nova York, e as modelos possuíam faixas de luto e um andar fúnebre. Para não ser presa, por causa de um decreto que proibia que falassem mal do Brasil no exterior, realizou o desfile na casa do cônsul-geral do Brasil nos Estados Unidos, já que a casa dele era território brasileiro e assim não estaria fazendo denúncia no exterior.

Luana Piovani como Elke MaravilhaZuzu Angel, incansavelmente, fez de tudo para denunciar no Brasil e no exterior as torturas sofridas por seu filho e a ocultação de seu cadáver. Em desfiles no exterior, denunciou a morte de Stuart para a imprensa estrangeira e para políticos norte-americanos, pois seu filho também tinha cidadania americana, já que seu pai, Norman Angel Jones, era americano. O atrevimento e a audácia de Zuzu em sua luta, provavelmente culminaram em sua morte em um acidente de automóvel bastante estranho, cujas circunstâncias não ficaram claras até hoje. O acidente ocorreu na saída do túnel Dois Irmãos no Rio de Janeiro. Hoje este túnel leva o nome dela.

Zuzo Angel ainda é considerada referência no mundo fashion, foi a primeira a começar a exportar seus modelos, que são copiados e fonte de inspiração até hoje. Em 2001, o estilista mineiro Ronaldo Fraga prestou uma homenagem à conterrânea Zuzu, com uma coleção inspirada nela e intitulada “Quem matou Zuzu Angel?”, emocionando a platéia do SPFW. A passarela foi coberta de nuvens e bonecos foram pendurados, representando presos políticos e torturados. Segundo Ronaldo Fraga: “Ela foi a primeira a buscar a identidade da moda brasileira, a falar de Brasil sem trajes típicos, a acreditar no poder panfletário da moda, a bordar usando artigos brasileiros e a fazer moda política. Ela foi única”.
  
Atualmente está em cartaz o filme “Zuzu Angel”, dirigido por Sérgio Resende que conta a história desta inovadora estilista. Sérgio Resende foi o diretor de “Lamarca”, “Guerra dos Canudos” e “O Homem da Capa Preta”. Segundo ele: “Zuzu foi uma mulher extraordinária e teve esse traço revolucionário. Mas as novas gerações conhecem pouco a história. Acho que o filme vai poder recuperar isso”. Grande parte das cenas foram feita em Minas Gerais, e o papel principal da estilista ficou com Patrícia Pillar, que encarnou muito bem a personagem. Daniel de Oliveira (do filme Cazuza) faz o filho de Zuzu, Stuart. O elenco conta ainda com Othon Bastos, Leandra Leal, Aramis Trindade e Angela Leal. O filme se concentra no período de 1971, quando Stuart é morto, até 1976, quando morre Zuzu Angel.            

*Ana Carolina Acom é formada em Filosofia pela UFRGS, pesquisa moda e semiótica das vestimentas.

Fotos: Reprodução


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